
Se o Brasil tem uma irmã mais velha, é a Colômbia. Lá se fala uma língua diferente, o castelaño, mas a culinária, a geografia, o clima e o cotidiano de seus moradores se parecem bem com o brasileiro. Agora, quando o assunto é social, é preciso ficar atento e aprender com a experiência desse país que passa por muitas dificuldades de extrema pobreza e violência armada e hoje busca reverter esse contexto com a contribuição de todos os cidadãos.
Em Medellín, capital da Antioquia, as mudanças estão à vista. Obras pela cidade, festivais de arte e cultura, segurança pelas ruas, muitos projetos sociais sendo desenvolvidos. As favelas de lá se chamam comunas e elas são muitas, ocupam grande parte do território da cidade, suspensas no fim da Cordilheira dos Andes.
Dois projetos sócio-culturais foram visitados na semana em que aconteceu o Congresso de Formação Artística e Cultural para América Latina e Caribe, em agosto de 2007. Em ambos, a arte é uma aliada na busca integrada por paz, conhecimento, desenvolvimento pessoal e profissional dos envolvidos. O teatro é a principal expressão artística.
Especialmente na Comuna 2, chamou a atenção o trabalho desenvolvido pela Corporacion Cultural Nuestra Gente, surgido em 1987 e com atuação em três frentes de trabalho: Desenvolvimento institucional, que articula parcerias de sustentabilidade para o grupo; Formação artística, com o propósito de “construir artistas para a vida”; e Projetando arte, grupo de teatro profissional que circula seus espetáculos e também incorpora jovens que estão no processo de formação.
Em uma linha artística-social semelhante, desenvolvida no bairro Belén, está La Corporacion Artística La Polilla que há 22 anos realiza um trabalho de sensibilização, fortalecimento e desenvolvimento dos valores culturais da comunidade. Para isso, eles mantêm um centro cultural com um teatro onde são realizados espetáculos, filmes e festivais e também são desenvolvidas atividades de formação artística e eventos especiais como o MIMAME – Festival Internacional de Mimos, que está em sua 10ª edição.
Nuestra gente
A sede do grupo é uma casa amarela de esquina que guarda antigas histórias da cidade e se revela inteira criação coletiva de todos que estão lá, do mosaico no muro da casa às placas de indicação interna.
O mural de fotos revela que muitos daqueles jovens estão no projeto desde criança, são multiplicadores e protagonistas desta representativa ação sócio-cultural.
Neste espaço são realizadas oficinas de formação e capacitação humana e artística nas áreas de teatro, dança, música, comunicação comunitária rádio e tv, trabalhos que são projetados em intercâmbios, mostras,festivais e encontros comunitários anuais. Tudo acontece de modo integrado e os anos de dedicação e trabalho consolidaram o Nuestra Gente como uma referencia local e de toda a América Latina.
Atuação local com consciência global
Na Corporacion Artística La Polilla só não pode entrar a tristeza. A arte está em todos os lugares e o centro cultural mantido pelo grupo, no bairro Belén, está sempre repleto de atividades e de gente. Marionetes, palhaços, atores transitam entre músicos e educadores em formação ou em cena. A programação e outras informações estão disponíveis no site http://www.lapolilla.org/
La Polilla pretende ser uma empresa comunitária do setor cultural com um conjunto de programas e serviços que promova a geração de empregos e a dinamização da atividade cultural da zona onde atua. O trabalho desenvolvido no bairro Belén repercute em toda cidade, na América Latina e envolve crianças, jovens e adultos. O poder público reconheceu e, em 1998, o La Polilla foi agraciado com o prêmio “El Medellín que yo promuevo”, dentre outros.
Além de atuar na formação de artistas e agentes culturais, La Polilla acolhe grupos cênicos, fortalecendo sua consolidação. Dentro da própria sede são apresentados espetáculos criados pelos próprios grupos, difundindo a arte e ao mesmo tempo buscando viabilizar sua sustentabilidade.
Tanto o La Polilla como o projeto Nuestra Gente revelam um nível de profissionalismo e foco de ação exemplar para a área sócio-cultural e para o terceiro setor. Os resultados saltam aos olhos e o reconhecimento do poder público e outras instituições do terceiro setor também legitima essas iniciativas. Projetos que se cruzam em parcerias coletivas de redes e entidades colombianas e intercâmbios com artistas e agentes de diversos países. Projetos que podem bem representar uma “boa lição” colombiana ao caçula Brasil.
A viagem à Colômbia foi em agosto de 2007. Este texto editado saiu a pouco como colaboração pra seção "Outro Umbigo" no Informativo nº 7 da ONG Favela é Isso Aí . A Ora Boa segue sem pressa, vivendo momentos de reflexão prática.
2.6.09
MÃOS À OBRA
23.4.09
1266
Das grandes regiões de São Paulo, essa talvez seja a maior. O metrô pra lá diz ser o mais lotado. O palpite acabou sendo que o tamanho de Belo Horizonte inteira devia corresponder a toda a Zona Leste paulista.
Mais adiante, o casamento na clássica igreja puxa o papo para o refúgio histórico num lugar de representativa arquitetura. O que mais chama a atenção é o nome da Igreja, que o taxista desconhecia.
- Nossa Senhora do Brasil. Disse “toda entendida”.
17.4.09
UMA LEITURA DE STUART HALL
A problematização que Stuart Hall, teórico cultural jamaicano radicado no Reino Unido apresenta no artigo “Notas sobre a desconstrução do ‘popular’”, trata dos desafios de periodização da cultura popular e da definição de um conceito único para o termo “popular”.
Hall chama atenção para a necessidade de se entender o duplo movimento da cultura popular, o processo dialético de contenção e resistência. A cultura popular é o “terreno sobre o qual as transformações são operadas”, não se consistindo nem em uma tradição intacta, nem mesmo em um terceiro elemento totalmente novo.
A partir do século XVIII as relações sociais se intensificaram com as classes trabalhadoras em formação, geralmente “distantes das disposições da lei, do poder e da autoridade” e ao mesmo tempo integradas ao “campo mais amplo das forças sociais e das relações culturais”. O autor cita o vínculo da cultura popular com a sociedade ”através de inúmeras tradições e práticas. Por linhas de ‘aliança’ e por linhas de clivagem”, e também a resistência de um século de algumas regiões, fazendo-se necessário um processo contínuo e permanente de reeducação e reforma.

Periodização
O período entre 1880 e 1920 é o recorte temporal dado pelo autor que, referenciando Gareth Stedman Jones, observa que “em algum momento desse período se encontra a matriz dos fatores e problemas a partir dos quais a nossa história e nossos dilemas peculiares surgiram”.
Nesta época foram empreendidas mudanças a partir de questionamentos que se assemelham com o período atual. Hall contemporiza e considera não ser “por acaso que tantas das formas características daquilo que hoje consideramos como cultura popular ‘tradicional’ emergiram sob sua forma especificamente moderna”.
O período de desenvolvimento do capitalismo agrário para o industrial marca uma intervenção direta na cultura popular, que ainda não havia sido incorporada à lógica do capital que começava a se definir. Todo um processo de reeducação social desta cultura de “fora das muralhas, distante da sociedade política e do triângulo do poder” foi empreendido no século XIX.
Hall, por meio de questionamentos sobre o “imperialismo popular” parece elucidar algumas estratégias de massificação do consumo por meio da cultura popular. O autor cita a instituição da imprensa liberal da classe média da metade do século XIX às “custas da efetiva destruição e marginalização da imprensa local radical da classe trabalhadora”. A apropriação do popular pelo e para o consumo gera uma interferência no processo conceitual, informacional e lógico de uma classe para determinar uma direção uniforme para a massa.
A ruptura vinda com o período pós-guerra gera “mudança nas relações culturais entre as classes e um novo relacionamento entre o povo e a concentração e expansão dos novos aparatos culturais”. O autor enfatiza a necessidade de se estudar a cultura popular considerando a sua incorporação à dominação do imperialismo e da indústria cultural, no século vinte, num processo desencadeado nos séculos anteriores.
O “popular”
No mercado comercial e no senso comum resume-se ao que é consumido pela massa, definição “associada à manipulação e ao aviltamento da cultura do povo”. Este conceito para o termo popular Hall questiona por considerar que o povo, mesmo nutrido “por um tipo atualizado de ópio”, não é essencialmente passivo.
Outra restrição destacada ao termo popular é a distinção usualmente criada entre cultura comercial popular x cultura popular autêntica, sendo que o autor considera como problema básico desta percepção dual, o fato de que “ela ignora as relações absolutamente essenciais do poder cultural – de dominação e subordinação – que é um aspecto intrínseco das relações culturais”.
O autor chama a atenção para o fato de que a cultura popular está inserida no contexto das indústrias culturais, onde “há uma luta contínua e necessariamente irregular e desigual, por parte da cultura dominante, no sentido de desorganizar e reorganizar constantemente a cultura popular”. A cultura popular não transita apenas entre os extremos de isolamento e preservação ou total passividade e fácil manipulação, mas existe uma “concentração do poder cultural” que favorece o reconhecimento e a adesão por parte da maioria aos hábitos culturais estabelecidos.
A adesão da cultura popular a essa lógica imposta desde o século XVIII não é meramente pela via da manipulação, pois como apresenta Hall “junto com o falso apelo, a redução de perspectiva, a trivialização e o curto-circuito, há também elementos de reconhecimento e identificação”. É este processo complexo e dialético de resistência e aceitação que faz com que exista no campo da cultura “uma espécie de campo de batalha permanente”.
Outra conceituação do termo popular questionada por Stuart Hall é a que se refere a tudo o que o povo “faz ou fez”, que por ser abrangente e descritiva demais não permite uma diferenciação clara entre o que é e não é cultura. Este segundo ponto de dificuldade trata da categorização entre a cultura da periferia e a cultura dominante (povo x elite), uma fragmentação equivocada de um processo integrado, que é legitimada e instituída em diversos espaços sociais, como no sistema educacional, familiar, informacional etc.
A proposta do autor é de uma terceira definição para o termo, a que “considera, em qualquer época, as formas e atividades cujas raízes se situam nas condições sociais e materiais de classes específicas; que estiveram incorporadas nas tradições e práticas populares”.
O processo dialético da cultura popular, em relação contínua com a cultura dominante é destacado pelo autor, como ponto a ser considerado nos estudos e compreendido nos processos históricos não como “culturas inteiramente isoladas ou paradigmaticamente fixadas”, mas como um processo dinâmico de reorganização e recriação permanente.
Em contraponto à crítica de visão de cultura popular e tradição como algo que precisa ser preservado e mantido estático, Hall instiga a percepção de que “a cultura popular é um dos locais onde a luta a favor ou contra a cultura dos poderosos é engajada”. E isso diz muito sobre possibilidades de transformação no contexto mundial atual.
Da diáspora: Identidades e mediações culturais / Stuart HallOrganização Liv Sovik, Tradução Adelaine La Guardiã ResendeBelo Horizonte: Editora UFMG; Brasília : Representação da UNESCO no Brasil, 2003
Voltando aos poucos. E entrando de acordo no processo de pesquisa > Resenha para a disciplina de Teorias da Cultura - curso pós-graduação em Gestão Cultural pelo Celacc/ECA/USP
16.4.09
TOM
21.1.09
NOTA EXPLICATIVA PARA UMA NOVIDADE

2009 representa para a Ora Boa dois anos de vida virtual, por meio deste blog, e quatro anos de vida prática, com intensa atuação na cena artística e cultural de Minas Gerais. Independentemente do tempo, esse período representa acima de tudo uma busca por um conceito em construção, que pode se experimentar e se definir aqui sem a pressão institucional de umas horas ou o deadline apressado de outras.
Esse caminho vem se construindo no limite tênue entre o objetivo e subjetivo, a realização profissional e a pessoal e outras entrelinhas mais. Tudo o que vêm sendo registrado aqui é feito com imenso prazer, mas não sendo a única coisa que se deseja compartilhar, a Ora Boa resolveu se multiplicar.
Por aqui uma pequena pausa, para avaliações e planos da prática profissional. Enquanto isso, para não ficar parado : Rapidinhas, a versão dicas da oraboa para experimentar o lado acelerado da web e te manter informado.
Toda semana tem agenda cultural e várias dicas de arte pra você acompanhar a tempo. Vai lá, mas não deixe de voltar sempre aqui hã?
30.12.08
qbpd

26.11.08
'ÁFRICA GERAIS'
Nossa Senhora do Rosário era santa branca, vinda de Portugal. No Brasil ela surgiu como lenda, no meio das águas, como uma iluminação. Foram muitas as tentativas para tirá-la da água e enaltece-la em um altar. Era tempo da escravidão, quando os novos moradores do Brasil-colônia, cada um oriundo de um canto estabeleceram suas relações. Uns vindo para dominar, outros dominados buscando preservar o que traziam por dentro. Cada um com sua crença e, naquele momento, uma santa para trazer para perto.
De todas as tentativas, a atendida foi a prece com cantos e tambores puxada pelos negros, com sua reza própria, festiva e rueira. Ela veio e foi assim que Nossa Senhora do Rosário se tornou sua padroeira, a santa branca, protetora dos escravos, um elo simbólico do sincretismo no Brasil, onde os negros encontraram na Igreja Católica uma forma correspondente de celebrar a sua fé, da sua forma, assim respeitada pela santa católica. O Reinado de Nossa Senhora do Rosário então se formou entre descendentes dos escravos no Brasil, especialmente em Minas Gerais, interior de Goiás e Espírito Santo, sendo popularmente conhecido como Congado.
Este mito fundador do Congado é o ponto de partida de um processo artístico realizado entre integrantes de cinco Irmandades de Congado das cidades de Contagem e Oliveira, interior de Minas. A proposta desenvolvida pelo diretor e autor de teatro João das Neves e pela cantora Titane, resultou no projeto-espetáculo “A Santinha e os Congadeiros”, que enfoca o viés artístico desta manifestação religiosa e cultural e paralelamente valoriza e fortalece essa tradição secular.
“O congado é uma manifestação da religiosidade que se faz ver a partir de uma manifestação artística com canções, tambores e bandeiras conduzindo sua religiosidade”. A visão de João das Neves é compartilhada por Titane e por diversos outros artistas que referenciam a cultura afro-mineira em suas criações, incorporando instrumentos, cantos e outros elementos do Congado. Essa apropriação, fruto do contato de diferentes culturas e formas de expressão, é cada vez mais freqüente no mundo contemporâneo onde os limites da diversidade estão cada vez mais próximos.
João das Neves e Titane tem um histórico de interações com a cultura popular e especialmente com o Congado, “apropriado” nos discos Inseto Raro e Sá Rainha e outros trabalhos. Desta vez, com o projeto “A Santinha e os Congadeiros” os parceiros estabeleceram um processo inusitado: integrantes das guardas encenam a si próprios. Uma apropriação ao inverso ou no mínimo uma ação diferenciada, em que o processo artístico desencadeia também um elo dos jovens integrantes com a tradição, e uma valorização pela sociedade desta herança afro-brasileira.Da mesma forma que Nossa Senhora aceitou “os negros como eles são, cantando, dançando, cultuando do seu jeito”, como afirmou Pedrina Santos, Capitã da Guarda de Moçambique Nossa Senhora das Mercês, de Oliveira, os artistas envolvidos na formação do elenco para a montagem do espetáculo “A Santinha e os Congadeiros” se fundamentaram nas particularidades dos integrantes das guardas. “Nosso trabalho não é para mudar o jeito de cantar ou para mudar os significados, mas para mostrar como é”, registrou Titane, que coordenou o projeto e a preparação musical do elenco.
A criação conta com elementos identitários dos participantes. A tradição se expressa pela arte, se comunica de outra forma com a mediação de João das Neves: “O caminho do artista é geralmente conhecer e beber de uma cultura para criar o seu trabalho. Neste caso, os artistas vão até a cultura e ela própria cria o seu trabalho artístico”.
A interação entre artistas e integrantes da guarda gerou o espetáculo “A Santinha e os Congadeiros”, apresentado nos dias 15 e 29 de novembro, em Contagem e Sete Lagoas, interior de Minas Gerais. O processo de montagem da peça desencadeou um contato com arte por meio da tradição que despertou em integrantes da guarda um novo interesse e uma conseqüente valorização desta tradição.
“A cultura negra é essencialmente festiva e rueira. A festa do Congado antes era perseguida, hoje é assediada. Este é um novo tempo, que exige outro comportamento dos capitães das guardas seculares de congado”. João das Neves aponta para o que Jorge Antônio dos Santos, da diretoria de eventos da Comunidade dos Arturos confirma: “Esse projeto é uma forma diferente de mostrar essa história. É um meio de manter a juventude, despertar e valorizar os jovens. Eles se sentem valorizados e valorizam a tradição. É um outro meio de preservar, manter e dar seqüência à nossa tradição”.
Para quem acompanhou: o post que estava em construção virou colaboração para a revista Continuum, do Itaú Cultural. Visita lá. Aproveite e conheça mais sobre a revista aqui mesmo.


